Política

Crise no Paraguai pode esfriar negociações com o Brasil

Por Arimatéia Júnior — 07/11/2026 08:19

Presidentes
Presidentes (Foto: r7.com)

A instabilidade política e financeira do Paraguai pode se tornar um obstáculo à integração regional e às negociações com o Brasil. O cenário, desencadeado pelo colapso do banco Ueno e seguido pela renúncia do presidente Santiago Peña, pode congelar negociações estratégicas, dificultar decisões sobre Itaipu e comprometer a confiança de investidores.

Em um primeiro momento, a tendência é de um esfriamento das relações entre os dois países. Outro reflexo pode ser no Mercosul — bloco econômico formado por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Venezuela (atualmente suspensa).

Ainda que tenha uma economia menor que a do Brasil e da Argentina, a instabilidade paraguaia pode afetar decisões estratégicas do bloco, observa o coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR, João Alfredo Lopes Nyegray.

“O bloco está avançando em sua agenda de acordos comerciais, inclusive com a União Europeia, e discutindo formas de ampliar sua inserção econômica internacional. Uma crise política em um dos países-membros pode dificultar a coordenação de posições, retardar decisões e criar novas incertezas para os parceiros externos”, diz.

No caso do Brasil, a questão principal será a capacidade do Palácio do Planalto de manter o diálogo com o governo paraguaio, principalmente em temas mais sensíveis, como Itaipu, comércio bilateral, infraestrutura de fronteira e integração energética.

“Portanto, não espero uma mudança radical na política externa paraguaia. O que podemos ter é uma mudança de prioridades e de estilo de negociação. E, para o Brasil, o mais importante será preservar os canais institucionais de diálogo, independentemente das disputas políticas internas do país vizinho”, pontua Nyegray.

‘Vácuo no poder’
A internacionalista Ludmila Culpi avalia que a indefinição sobre quem estará à frente do governo paraguaio dificulta a continuidade das negociações e pode provocar impactos sobre investimentos e relações comerciais.

“O Paraguai vive hoje um vácuo de poder: um presidente que anunciou a renúncia, mas continua no cargo, e um processo de destituição em andamento no Senado. Para o Brasil, o primeiro risco é não ter um interlocutor estável do outro lado da mesa. O segundo é o risco econômico, pois podemos nos tornar alvos de fuga de capital”, afirma.

A especialista destaca que a crise financeira pode atingir diretamente o consumo e, consequentemente, o comércio com o Brasil, principal parceiro comercial do Paraguai. O impacto tende a ser mais expressivo entre pequenos poupadores, aposentados e empresários que dependem da disponibilidade de recursos para manter suas atividades.

Culpi também chama atenção para a relação entre os investimentos brasileiros e o modelo de produção paraguaio. A carga tributária mais baixa do país vizinho atraiu empresas brasileiras interessadas em produzir por meio do regime de maquila, voltado à fabricação de bens e serviços para exportação.

“No ano passado, 64% das exportações da maquila paraguaia foram para o Brasil, então qualquer desaceleração lá se transmite rapidamente para cá”, ressalta.

Negociações e Itaipu
A instabilidade política também pode comprometer o andamento de acordos bilaterais. Para o especialista em relações governamentais e professor do Ibmec Brasília, Eduardo Galvão, o impacto mais imediato tende a ser a desaceleração das negociações que dependem de decisões políticas e compromissos financeiros.

Brasil e Paraguai mantêm uma agenda estratégica envolvendo energia, comércio, infraestrutura e integração produtiva. Entre os assuntos que exigem maior atenção está a revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu, que estabelece as bases financeiras e comerciais da usina binacional.

“É importante distinguir, entretanto, os acordos que já estão em vigor das negociações que ainda precisam ser concluídas. Os compromissos internacionais não deixam de existir porque um presidente renunciou ou porque o país enfrenta uma crise política. O problema está na capacidade de tomar novas decisões, garantir recursos e implementar o que foi negociado”, explica Galvão.

O professor lembra que o entendimento firmado em 2024 estabeleceu uma tarifa de US$ 19,28 por kW/mês até o fim de 2026. A definição das condições financeiras da usina para 2027, entretanto, ainda precisa avançar.

A importância econômica de Itaipu para o Paraguai também amplia a preocupação com os desdobramentos da crise. Entre janeiro e outubro de 2026, a binacional transferiu US$ 381 milhões ao setor público paraguaio, considerando royalties, compensação pela cessão de energia e pagamentos à Administração Nacional de Eletricidade.

Outro ponto de atenção é a informação de que Itaipu mantinha recursos no Ueno Bank. Segundo Galvão, ainda não está esclarecido o montante efetivamente bloqueado, mas o episódio pode ampliar as pressões por transparência e controle sobre a gestão financeira da binacional.

Ludmila Culpi também considera que Itaipu exige estabilidade política e previsibilidade dos dois países. Para ela, a transição de poder pode transformar a questão energética em instrumento de disputa política interna, uma vez que o tema possui forte apelo nacionalista no Paraguai.

A internacionalista acrescenta que a aproximação paraguaia com os Estados Unidos já vinha enfraquecendo as relações com Brasil e Argentina. Na avaliação dela, a crise pode aprofundar as dificuldades de articulação regional.

Reflexos no Mercosul
No âmbito do Mercosul, a preocupação envolve tanto a continuidade dos acordos quanto a imagem de estabilidade econômica e institucional do bloco. Para Galvão, a crise paraguaia pode dificultar a coordenação entre os países, justamente em um momento importante para a implementação do acordo comercial com a União Europeia, em aplicação provisória desde maio de 2026.

O especialista lembra que o bloco já enfrentou consequências regionais de crises políticas. Em 2012, o Paraguai foi suspenso da participação nos órgãos do Mercosul após o julgamento político que destituiu o então presidente Fernando Lugo.

“Não significa que a situação atual seja equivalente, porque isso depende das circunstâncias e do respeito às garantias constitucionais. Mas o episódio mostra que crises institucionais podem produzir consequências regionais”, pondera.

Culpi, por sua vez, alerta para o chamado efeito contágio sobre os mercados. Segundo ela, a instabilidade em um país pode afetar a percepção dos investidores sobre toda a região, dificultando o acesso ao crédito e afastando investimentos.

“No Mercosul, o maior risco é o efeito contágio: o investidor olha para a região como um bloco, e a queda de um presidente associada a um escândalo bancário abala a imagem de porto seguro que o Paraguai vinha construindo. Isso pode encarecer o crédito e afastar capital de todas as nossas economias emergentes”, afirma.

A internacionalista também aponta possíveis consequências migratórias caso a crise se aprofunde e provoque impactos sobre emprego e renda. Nesse cenário, o Brasil poderia registrar aumento da chegada de paraguaios, especialmente nos estados do Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

Como o Brasil deve agir
Diante das incertezas, especialistas defendem que o governo brasileiro adote uma postura de cautela diplomática, sem interferir diretamente na disputa política interna do Paraguai. A prioridade, segundo eles, deve ser preservar os canais institucionais e garantir a continuidade dos compromissos bilaterais.

Para Culpi, o Brasil deve respeitar os caminhos constitucionais do país vizinho e manter a interlocução técnica, especialmente em Itaipu e entre os bancos centrais.

“É hora de reforçar a integração, não de recuar. E o Brasil precisa se preparar na fronteira, articulando com os municípios fronteiriços e usando o acordo de residência do Mercosul, para tratar um eventual aumento do fluxo migratório como questão humanitária e de integração, não de segurança”, defende.

Galvão também considera fundamental preservar o diálogo entre os ministérios das Relações Exteriores, as equipes técnicas de Itaipu e os órgãos responsáveis pelos projetos de integração.

“A relação entre Brasil e Paraguai precisa ser maior do que a crise de um governo. Essa deve ser a referência da atuação brasileira. A prioridade é impedir que uma crise política conjuntural comprometa investimentos e iniciativas de integração que são importantes para o desenvolvimento dos dois países e de toda a região”, conclui.