Tocantins

Facção tinha 'juiz' em São Paulo para ordenar punições e até mortes no Tocantins, aponta investigação

Polícia Civil deflagrou uma operação contra facção criminosa que atua no Tocantins / Foto: Polícia Civil

Por Arimatéia Júnior — 30/10/2026 00:00

invasao
invasao (Foto: af noticias)

Mesmo atrás das grades, integrantes de uma organização criminosa continuavam comandando o tráfico de drogas, movimentando dinheiro e determinando punições violentas contra desafetos e membros da própria facção em Paraíso do Tocantins.

O esquema, que incluía um verdadeiro "tribunal do crime" e teria ligação com uma liderança instalada em São Paulo, é alvo da Operação Stuart, deflagrada pela Polícia Civil do Tocantins na manhã desta quinta-feira (29/10).

A ofensiva mobilizou equipes policiais nos dois estados para cumprir cinco mandados de prisão preventiva e 12 de busca e apreensão, expedidos pela Justiça da Comarca de Paraíso do Tocantins. Desse total, quatro prisões e nove buscas foram determinadas em Paraíso, enquanto uma prisão e três buscas tiveram como destino a cidade de Cotia, na região metropolitana de São Paulo.

A investigação, conduzida pela 6ª Divisão Especializada de Repressão ao Crime Organizado (6ª DEIC), começou em 2025 e revelou, segundo a polícia, uma estrutura criminosa organizada para manter suas atividades mesmo com parte dos integrantes recolhida ao sistema prisional.

Por meio de comunicações clandestinas, presos transmitiam ordens a comparsas em liberdade, coordenavam o comércio de entorpecentes, controlavam movimentações financeiras e determinavam represálias contra pessoas que desobedecessem às regras da facção.

As investigações apontam que companheiras e outros familiares dos detentos, também investigados por possível participação na organização, atuavam como intermediários na transmissão das determinações e na continuidade das atividades criminosas fora dos presídios.

Suspeito em São Paulo atuaria como 'juiz' da facção

Um dos principais alvos da investigação é um homem de 35 anos, identificado pelas iniciais R.P.S., conhecido pelo apelido de "Yuri Alberto", localizado em Cotia (SP).

Segundo a Polícia Civil, ele integraria um setor da cúpula da organização criminosa denominado "Sintonia da Fora do Ar" e "Pé Quebrado", responsável por analisar conflitos internos e determinar punições contra integrantes da facção.

As informações reunidas pelos investigadores indicam que o suspeito exerceria influência sobre membros da organização presos tanto em Paraíso do Tocantins quanto em unidades prisionais de São Paulo.

Nesse sistema, ele atuaria como uma espécie de "juiz" do chamado tribunal do crime, recebendo solicitações de outros integrantes, avaliando condutas, autorizando ações e repassando ordens para a aplicação de castigos.

Agressões, ameaças e ordens de morte

O esquema investigado pela Polícia Civil revela como a facção teria estruturado um sistema paralelo de punições para impor disciplina, intimidar integrantes e controlar suas atividades criminosas.

Entre as práticas identificadas nas investigações estão ameaças, agressões físicas conhecidas pelos criminosos como "madeirada" e até determinações para execução de pessoas que descumprissem as regras impostas pela organização.

De acordo com a polícia, as punições eram decididas por integrantes com posições superiores na hierarquia da facção e executadas por comparsas, inclusive fora das unidades prisionais.

A possível participação do suspeito conhecido como "Yuri Alberto" nessa estrutura continua sendo apurada. Os fatos investigados ainda dependem de responsabilização individual perante a Justiça.

Celulares clandestinos mantinham a comunicação

Um dos pontos centrais da investigação é a utilização de aparelhos celulares introduzidos clandestinamente no sistema prisional.

Segundo a Polícia Civil, os equipamentos permitiam que integrantes presos mantivessem contato com pessoas em liberdade, transmitissem ordens e continuassem exercendo influência sobre as atividades criminosas.

A referência a esses aparelhos deu origem ao nome da operação. "Stuart" é uma expressão utilizada por detentos para identificar celulares de pequenas dimensões, em alusão ao personagem do filme "O Pequeno Stuart Little".

Operação envolve forças policiais de dois estados 

O delegado Antonio Onofre Oliveira da Silva Filho, responsável pela investigação, destacou que o trabalho permitiu identificar diferentes níveis da estrutura criminosa, desde os responsáveis pela execução de ordens até a possível participação de integrantes da cúpula que atuam fora do Tocantins.

"Essa investigação permitiu identificar uma ramificação da estrutura criminosa, desde os responsáveis pela execução das atividades ilícitas até a possível participação de um integrante da cúpula da organização, que atua de fora do estado", afirmou.

A Operação Stuart integra a Operação Protetor de Divisas, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e contou com o apoio de unidades especializadas das Polícias Civis do Tocantins e de São Paulo, além da Polícia Penal tocantinense e do Escritório Nacional Antifacção de São Paulo.

Entre as equipes mobilizadas estão a Diretoria de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco), o Grupo de Operações Táticas Especiais (Gote), unidades de investigação de homicídios e narcóticos, delegacias de Paraíso do Tocantins e o Grupo de Operações Penitenciárias Especiais (Gope).

A operação busca aprofundar a identificação dos envolvidos, reunir provas e interromper a comunicação e as atividades atribuídas à organização criminosa.

O balanço apresentado pela Polícia Civil informa os mandados expedidos, mas não detalha, até o momento, quantas prisões foram efetivamente realizadas durante a operação. 

Publicada por 'AF Noticias'